A energia do caos
Alípio acordou eufórico. A ideia gritava em sua cabeça.
A energia do caos.
Artista acostumado com as mais diversas experimentações, estava há semanas em busca de um tema que pudesse expressar sua arte com o peso que seu nome carrega. No círculo de artistas inovadores e surpreendentes, Alípio era nome de destaque. Sempre aparecia com algo a mais, algo fora da caixa… algo que ninguém havia pensado antes. Seu nome virou sinônimo de excelência.
— É tão incrível que parece um Alípio — diziam os entusiastas da área.
Foi assim por um bom tempo, mas, verdade seja dita, depois da instalação “Sonhos”, onde apareceu só de paletó e cueca e sem os dentes da boca, a luz da genialidade parecia apagar aos poucos. Vá lá. A casa construída só com patos de borracha até chamou atenção, mas não tinha uma discussão, não tinha um conceito… Não era digna de um Alípio.
Seu próximo trabalho precisava ser algo surpreendente. Algo para explodir a cabeça. Principalmente daqueles que viviam falando pelas suas costas: “Pobre Alípio. Ele já não é mais o mesmo.”
Tudo começou uma semana antes, quando foi com um grupo de artistas à favela da Rocinha em uma vivência contemplativa chamada “A alma dá um jeito”. A ideia era gerar insights para uma mostra sobre as agruras da desigualdade que será montada em Paris no próximo ano. No meio da explosão de oferta de imagens e estímulos, algo chamou sua atenção: um emaranhado de fios de alta tensão saindo de um mesmo poste. Não dava para saber onde começava um e onde terminava o outro. Eram muitos. Alípio imaginava o movimento dos cabos, aquelas energias pulsantes cruzando-se umas sobre as outras, tudo fluindo e, ao mesmo tempo, próximo de explodir.
Materializar o caos em uma simbologia capaz de expressar tudo o que ele representa. A energia em movimento, caminhando pelo absurdo do incerto e se retroalimentando em uma espiral infinita e ininterrupta.
A energia do caos. Esse seria seu próximo tema. Um tema digno de um Alípio.
A produção foi rápida. Escolheu óleo sobre tela. Alípio nunca esteve tão certo das texturas, das cores e do traço. A imagem precisava ser realista e, ao mesmo tempo, carregar algo orgânico, sem controle. O figurativo e o abstrato dançando no mesmo espaço.
A apresentação de sua criação ao mundo merecia atenção especial. Decidiu que faria um grande evento com transmissão ao vivo. O grande público poderia interagir pelo chat, cada pessoa externando aquilo que a arte provocava em sua alma. Presencialmente haveria jornalistas e críticos, escolhidos a dedo, para testemunharem de perto o nascimento de “A Energia do Caos”.
Não se falava em outra coisa. Os patrocinadores estavam muito satisfeitos.
Chegou o grande dia. No horário marcado, Alípio entrou no palco. Não fez discurso, não agradeceu ninguém… Apenas apareceu diante da pequena plateia e dos milhares de internautas que acompanhavam ao vivo. Parou diante da obra, coberta por uma espécie de lençol branco, fez uma pausa e anunciou, puxando o pano de forma abrupta:
— A energia do caos!
O silêncio invadiu o ambiente. A imagem de um “gato” de energia pintada a óleo era bonita, mas será mesmo que era digna de um Alípio?
O primeiro a se manifestar foi o crítico do jornal “O Folhetim”.
— Bravo! Bravíssimo. Que arte incrível.
A manifestação chamou atenção do representante do jornal “Folha Global”, um dos mais importantes do país, que já sinalizava um certo desconforto.
— Isso? Um emaranhado de fios? É isso que o senhor acha incrível? Não é à toa que escreve para um jornaleco — A fala agressiva serviu como desabafo. Desde que chegou, não aceitava bem o fato de ele, um representante de um jornal tão importante, dividir espaço com alguém de um jornal minúsculo, quase um jornal de bairro.
A resposta veio em energia equivalente:
— E desde quando a arte se importa com a tiragem de um jornal vendido? Somos pequenos, mas temos alma.
Nesse momento começaram a chover comentários no chat.
— Folha Global lixo! Folha Global lixo! — A frase aparecia a cada três segundos, intercalada por figurinhas da Frida com dizeres “Viva la vida”.
Outra turma carregava no repúdio.
— Isso é um absurdo! É essa arte que ensinam nas escolas! — Seguidos de emojis com carinha verde de enjoo.
Jornalistas e críticos começaram a falar ao mesmo tempo. A mulher que interpretava a apresentação em Libras parecia em estado de convulsão, de tão rápido que fazia os movimentos.
Nos bastidores, os telefones começaram a tocar. De um lado, patrocinadores eufóricos com a confusão e a capacidade viral do episódio nas redes:
— Será que terá agressão física? Deixa rolar, deixa rolar…
Do outro, patrocinadores indignados por terem sua marca estampando um verdadeiro fiasco. Uma bagunça.
No canto do palco, quase esquecido, estava Alípio. Sentado em uma pequena poltrona de couro com cor puxando para o tabaco, observava toda a movimentação com uma taça de vinho tinto na mão e um leve sorriso no rosto.
— A energia em movimento, caminhando pelo absurdo do incerto e se retroalimentando em uma espiral infinita e ininterrupta.
A energia do caos.
Uma obra digna de um Alípio.



